19 de febrero de 2018

Sobre lo hecho a mano / Sobre o feito à mão / About handmade


No sé si alguien todavía lo sigue viendo, pero por donde vivo se sigue repitiendo eso de que es mejor comprar a un artesano sus productos. En algún momento hubo todo un movimiento entre quienes manteníamos un blog sobre artesanía, que implicaba tomar una especie de juramento de comprar todo hecho a mano, lo que implicaba una especie de propuesta contra la producción industrializada de objetos. Incluso aquí, hace muchos años, yo coloqué el emblema de esa cruzada, que decía "Yo hice la promesa del todo hecho a mano" y que, con el tiempo, quité.
Seamos honestos. En ese momento, para muchos no fue más que un artilugio para lograr visibilidad en el mundo virtual, que, en principio, respondió a un auténtico deseo de dar valor a la producción de objetos hechos a mano.
Sin embargo, a mí siempre me quedó la sensación agridulce de que hay alguien a quien silenciamos cuando hacemos ese voto de comprar objetos que se supone que son únicos en su hechura: la mano de obra de esos artesanos explotados por los dueños de los talleres que producen a escala industrial. ¿Será que la producción de objetos textiles, por ejemplo, ha llegado a punto tal que no involucra la acción del ser humano en los procesos productivos? ¿Hemos llegado a punto tal que los souvenires, la indumentaria, el calzado, la joyería, los hilados, los productos textiles, y otros son producidos sin la acción del ser humano? ¿Ha triunfado la máquina por sobre la humanidad? ¿Qué hay de esos operarios que accionan los mecanismos de la producción industrializada y en serie? ¿Se hallan fuera de la especie humana sólo por el hecho de ser lo que muchos considerarían mano de obra barata? ¿Es tan poco valiosa la acción de la mano de estos trabajadores, generalmente explotados - incluso esclavizados - para considerar que lo que producen no puede ser considerado dentro del género de lo "hecho a mano"?
Me da la impresión de que en esta oposición entre comprar lo hecho a mano y comprar lo otro (por ejemplo, lo producido por el operario en la maquinaria fabril) hay un desplazamiento que oculta a quienes verdaderamente son responsables de la explotación laboral (que, por otro lado, son los que se pueden dar el lujo de comprar lo hecho a mano como un objeto de lujo) y que pone la carga en el eslabón más débil de la cadena de producción. No puedo dejar de pensar, también en quién es ese operario, o esa operaria de la producción fabril a quien se olvida mencionar en este juramento en pos del consumo del handmade. ¿Personas de las que mejor no hablar porque no las consideramos iguales a nosotras / nosotros?
En fin, estuve como siete años pensando esto mismo y nunca me animé a elaborar cabalmente un pensamiento al respecto, para ponerlo aquí. No quiero decir que no tenga valor esta intención de dar importancia a la labor del artesano / de la artesana que trabaja en soledad y cumple todos los roles que distintas personas llevan a cabo en una cadena de producción industrial. Creo, finalmente, que el problema del "juramento de comprar hecho a mano" no está en las dos últimas palabras, sino en comprar. Comprar "hecho a mano" no deja de ser, en definitiva, consumir.


I do not know if someone has seen it lately, but where I live people keep repeating that it is better to buy a product from a craftsperson. At some point there was a movement among those who maintained a blog about crafts, which involved taking a kind of oath to buy everything made by hand, which implied some kind of proposal against the industrialized production of objects. Even here, on this blog, many years ago, I placed the badge of that crusade, which said "I made the pledge of handmade" that, over time, I removed.



Let's be honest. At that time, for some it was nothing more but a contraption to achieve visibility in the virtual world, which, in principle, responded to a genuine desire to give value to the production of handmade objects.



However, I always had the bittersweet feeling that there is someone we silence when we make that vow to buy objects that are supposed to be unique in their making: the workmanship of those artisans exploited by the owners of the workshops that produce on an industrial scale. Could it be that the production of textile objects, for example, has reached such a point that it does not involve the action of the human being in the productive processes? Have we reached such a point that souvenirs, clothing, footwear, jewelry, yarns, textile products, and others are produced without the action of human beings? Has the machine triumphed over humanity? What about those workers who operate the mechanisms of industrialized and serial production? Are they outside the human species just because they are what many would consider cheap labor? Is the action of the hand of these workers, usually exploited - even enslaved - so unworthy to consider that what they produce can not be considered within the "handmade" genre?



I get the impression that in this opposition between buying what is made by hand and buying the other (for example, what is produced by the operator in the manufacturing machinery) there is a displacement that hides those who are truly responsible for labor exploitation (people who, on the other hand, can afford the luxury to buy handmade) and that puts the load on the weakest link in the production chain. I can not stop thinking, also, about who is that operator, or who is that factory production worker we forget to mention in this oath to favor the consumption of handmade. People who do not talk best because we do not consider our equal?



Anyway, I was like seven years thinking this to myself and I never dared to elaborate a thought about it, here on this blog. I do not mean that it's not important to value the work of the artisan who works alone and fulfills all the roles that different people carry out in an industrial production chain. I think that, in the end, the problem of the "oath to buy handmade" is not in the last  word, but in buying. Buying handmade is still, in short, consuming.



Eu não sei se alguém ainda fala disso, mas onde eu moro as pessoas continuam repetindo que é melhor comprar um produto de um artesão. Em algum momento, houve um movimento entre aqueles que mantiveram um blog sobre artesanato, que envolveu uma espécie de juramento para comprar tudo feito à mão, o que implicava uma espécie de proposta contra a produção industrializada de objetos. Mesmo aqui neste blog, muitos anos atrás, coloquei o emblema dessa cruzada, colocando o design que dizia "fiz a promessa do feito à mão" que, ao longo do tempo, eu removi.



Vamos ser honestos. Naquela época, isso não foi mais do que um engenho para alcançar a visibilidade no mundo virtual, que, em princípio, respondeu a um genuíno desejo de valorizar a produção de objetos artesanais.



No entanto, sempre tive a sensação agridoce de que há alguém que silenciamos quando fazemos esse voto de comprar objetos que deveriam ser únicos em sua criação: a mão de obra dos artesãos explorados pelos donos das oficinas que produzem a nível industrial. Será que a produção de objetos têxteis, por exemplo, chegou a  ponto tal que não envolve a ação do ser humano nos processos produtivos? Chegamos a tal ponto que as lembranças, roupas, calçados, jóias, fios, produtos têxteis e outros são produzidos sem a ação de seres humanos? A máquina triunfou sobre a humanidade? E quanto aos trabalhadores que operam os mecanismos de produção industrializada e em série? Eles estão fora da espécie humana apenas porque são o que muitos considerariam mão-de-obra barata? A ação da mão desses trabalhadores, geralmente explorados - até mesmo escravizados - é tão indigna para considerar que o que eles produzem não pode ser considerado dentro do gênero "artesanal"?



Tenho a impressão de que nesta oposição entre comprar o que é feito à mão e comprar o outro (por exemplo, o que é produzido pelo operador na maquinaria de fabricação), há um deslocamento que esconde aqueles que são verdadeiramente responsáveis ​​pela exploração do trabalho (pessoas que poden se dar o luxo de comprar handmade) e que coloca a carga no elo mais fraco da cadeia produtiva. Não consigo parar de pensar, também sobre quem é esse operador, ou aquele trabalhador de produção da fábrica que esquecemos mencionar neste juramento em favor do consumo de artesanato. Pessoas das que melhor não falar porque não as consideramos iguais?



Enfim, ja levo sete anos pensando nisso e nunca ousei elaborar um pensamento sobre isso aquí no blog. Não quero dizer que essa intenção de valorizar o trabalho do artesão ou artesá que trabalham sozinhos e cumprem todos os papéis que diferentes pessoas realizam em uma cadeia de produção industrial não tem valor. Penso, finalmente, que o problema do "juramento de comprar feito à mão" não está nas três últimas palavras, mas em "comprar". Comprar feito à mão não deixa de ser, em suma, consumir.

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